A excitação feminina não é um interruptor. É uma sequência de coisas que acontecem no corpo e na cabeça, algumas ao mesmo tempo e outras em ordem — e entender essa sequência resolve boa parte das queixas mais comuns sobre sexo.
A mais frequente delas: “demora muito”. Não demora. É o tempo que leva.
As quatro fases da resposta sexual
O modelo mais usado descreve quatro fases. Elas não têm duração fixa, e a passagem de uma para outra não é automática.
1. Desejo
É a vontade em si, e é a fase mais mal compreendida das quatro.
Ao contrário do que se supõe, o desejo feminino depende mais de androgênios que de estrogênio. A queda de estrogênio isolada — como na menopausa — não derruba o desejo sozinha; alterações de androgênio, sim, e de forma bem mais perceptível.
E existe um ponto que muda tudo para muita gente: o desejo nem sempre vem antes. Para boa parte das mulheres ele é responsivo — aparece depois que o estímulo começou, não antes. Esperar sentir vontade para só então começar é o que faz muita gente concluir, erradamente, que perdeu a libido.
2. Excitação
Começa a reação física: tensão muscular progressiva, aumento de batimentos e de pressão, e vasocongestão — o sangue se concentra na região genital.
É aqui que acontece a lubrificação, que é consequência da vasocongestão e não um sinal isolado de vontade. Vale saber disto por dois motivos: lubrificar não significa necessariamente estar pronta, e não lubrificar não significa não estar excitada. Anticoncepcional, amamentação, menopausa, antialérgico e estresse afetam a lubrificação sem tocar no desejo.
Também nessa fase a vagina se alonga e a parte interna se expande, e o clitóris aumenta e depois se recolhe sob o capuz — o que costuma ser confundido com perda de excitação, quando é o contrário.
3. Platô
A intensidade se mantém alta e estável, logo antes do clímax. O terço externo da vagina fica mais congestionado, e a sensibilidade chega ao pico.
É a fase mais fácil de estragar: mudar de ritmo, de posição ou de estímulo aqui costuma jogar a pessoa de volta para a fase anterior. O que funciona é repetir o que estava funcionando.
4. Orgasmo e resolução
O orgasmo são contrações rítmicas da musculatura pélvica, em intervalos de menos de um segundo, acompanhadas de liberação da tensão acumulada.
Na resolução o corpo volta ao estado inicial. Aqui há uma diferença relevante: o período refratário feminino costuma ser bem menor ou inexistente, o que torna possível um novo ciclo em pouco tempo — desde que o estímulo mude de região ou baixe de intensidade, porque a sensibilidade imediata é alta.
O que atrapalha cada fase
- No desejo: cansaço, estresse, medicamentos (principalmente antidepressivos), oscilação hormonal e conflitos não resolvidos com a pessoa
- Na excitação: pressa, estímulo direto cedo demais, e falta de lubrificação
- No platô: mudar o que estava dando certo, e distração
- No orgasmo: ansiedade de desempenho e a cobrança de que ele precisa acontecer
O que ajuda, na prática
Tempo, primeiro de tudo. A média de tempo até o orgasmo é bem maior que a duração média da penetração. Isso não é problema de ninguém — é aritmética, e resolve-se com preliminares mais longas.
Lubrificante, sem tratar como sinal de falha. Ele resolve a queixa mais comum e a mais fácil de resolver. À base de água serve para tudo e é compatível com preservativo e com brinquedo de silicone.
Não pular do desejo direto para a penetração. Se o desejo é responsivo, o começo precisa vir do estímulo — e não da vontade prévia.
Um vibrador, se a fase que trava é a última. Um sugador de clitóris mantém pressão constante sem a mão cansar, que é o motivo mais comum de a tentativa parar no platô.
Se a dificuldade for persistente, causar sofrimento, ou vier com dor, procure ginecologista ou terapeuta sexual. Dor na relação nunca é normal e sempre tem investigação.
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